Sociedade informática programada

By pituac

Tic, tac, tic, tac, tic, tac…  É essa a trilha sonora da sociedade que eu vivo. Sociedade de ritmo frenético, onde ficar parado esperando o tempo passar é avassalador. De tal maneira é assim, que surpreendeu muitos, chocou outros e acima de tudo inspirou aqueles que já se viam destinados ao modernismo e à sua caixinha de surpresas.

Uma dessas pessoas a quem me refiro é Villém Flusser, filésofo tcheco, que veio para São Paulo em 1941, tornando-se membro do Instituto Brasileiro de Filosofia e professor de Filosofia da Comunicação na FAAP posteriormente em 1962.

O que me interessa nele para criticar é uma de suas obras, um livro chamado “Filosofia da Caixa Preta – Ensaios para uma futura filosofia da fotografia”. Afinal, eu gosto de fotografia. A máquina fotográfica, seja ela antiga, com flashes que explodem, digitais, ou aquelas que simplesmente funcionam ao captar seu sorriso, veio para ficar e para mudar a concepção de muitos em relação ao que é arte. E foi Flusser o criador de uma filosofia em relação a tal.

Essa filosofia desenrola conceitos como imagem, aparelho, programa e informação. E o autor os une em uma frase, que acredito que seja por si só auto-explicativa: “imagem produzida e distribuída automaticamente no decorrer de um jogo programado, que se dá ao acaso e se torna necessidade, cuja informação simbólica, em sua superfície, programa o receptor para um comportamento mágico”.

Oras, todos nós já ficamos fascinados com uma imagem de algo vendável, querendo-o naquele momento. No mais, o que ele quer dizer é que tudo faz parte de um ciclo sempre finalizado na mesmice. E este “chão do eterno retorno”, onde tudo se repete, foi construído pela fotografia. Mas sua filosofia não é um monstro que nos induziu a pensar e agir dessa forma, tudo isso aconteceu espontaneamente. 

Aí está a coisa legal de falar, ou não. Seja qual for o campo do nosso pensamento estaremos pensando de forma informática, programada, aparelhada e imagética. Somos quase como computadores. E o autor fala que somos assim por causa da fotografia, que ela é nosso modelo, nos programou para isso. Estranho, nunca tinha pensado tão mal da minha câmera quanto agora, neste exato momento.

Inventamos coisas extensoras de nosso próprio corpo, mas depois esse instrumento nos toma e ficamos bem bobos diante dele. Ele se torna nosso exemplo do mundo, de nós mesmo e de nossa sociedade. Viramos pessoas máquinas, onde o controle que tínhamos é subvertido e nos tornamos controlados. Basta ver a quantidade de montadoras, indústrias, etc, que para montar um carro, avião, foguete, basta apertar um botão. Mágico isso. Viva o “mecanicismo”.

Mas pensando, se tudo já está pronto, programado, e nada nos leva a simplesmente nada, a gente é nada? Não somos seres livres, pensantes, que agimos por conta própria? Resposta? Infelizmente, olhando ao meu redor, a resposta é sim. É só olhar bem, ver o quanto somos robôs, onde nossos desejos, sentimentos e pensamentos são pré-estabelecidos. Se não o fosse, a publicidade não iria fazer tanto sucesso.

Villém Flusser joga pesado com os fotógrafos e diz que eles são o exemplo perfeito desse robozão que é nossa sociedade. Ele diz que os aparelhos fotográficos é que programam os gestos dos profissionais atrás das lentes, e não o contrário. Brincam com as imagens, focam apenas a informação, desprezam o objeto fotografia em si, com pensamentos, desejos e sentimentos de caráter robotizado. Esse é o modelo, desculpe a invenção da expressão, do profissional flusseriano. “…crêem dispor de um novo instrumento para continuar agindo historicamente… Os fotógrafos são inconscientes da sua práxis… Nadam eles na pós-indústria, inconscientemente.”

Para alcançar a sonhada liberdade diante dos programas, devemos colocar na cabeça que aparelhos são burros e que podem ser enganados, são comandáveis e não comandantes. E mais, eles permitem que os desejos humanos espontâneos sejam introduzidos, que suas informações possam ser submetidas a intenções do homem e que simplesmente são descartáveis. Resumindo, “liberdade é jogar contra o aparelho”.

Pelo menos por enquanto o computador, câmera fotográfica, ou seja lá o que for, necessitam do corpo humano. Por enquanto eles é que são extensões de nós, e não o contrário. Só não sei dizer até quando, já que a tecnologia aumenta cada vez mais, os que podem caminham a seu lado, mas os que não podem ficam estagnados e com certeza serão dominados por robôs grandes e malvados.

 

 

Postado por,

Ana Carolina Macieira Fleury Novaes

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